Retratos do Fim da Linha

Cida, Expedito e Patrick.

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Cida – Expedito, o Marido – Patrick, o Filho;

Cida mora há 4 anos na Portelinha. Sua casa é um barraco de madeira na área aberta da fábrica. Ressalta que a seu lar é simples e não está arrumado. No diminuto quarto seu marido sentado assiste televisão com o olhar perdido e expressão indefinida. Um dos filhos chega com um saco de pão, Cida comenta que “ele tem psicose, mas é um bom garoto”. Conta que veio para o Rio “por amor ao homem”, em busca de seu marido que chegou antes para trabalhar. O marido que ali estava, permaneceu sem produzir expressão alguma. Ele está desempregado, mas trabalhava como porteiro. Cida afirma que “os patrões não mantém as pessoas muito tempo no trabalho para pagar menos”.

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Ela chegou ao Rio vinda de Cuiabá há 20 anos. Morou na Baixada Fluminense, em Nilópolis. Ainda por lá sua vida caiu por uma espiral de tragédias da qual ainda não conseguiu escapar. Após uma separação, ficou sem casa e foi morar num abrigo no bairro de Triagem, do qual guarda amargas memórias, tendo sido roubada e maltratada. Em algum outro momento da sua trajetória foi morar na invasão da fábrica de beneficiamento de leite CCPL, de onde foi supostamente reassentada com uma promessa de indenização do Estado, que  ainda não recebeu. Neste ponto seu marido falou pela primeira vez, com uma voz enfraquecida, como se não a utilizasse há algumas horas, disse que eles devem receber 32 mil. Já esperam, sem suporte do Estado, há 2 anos. Ainda na época que vivia na CCPL, Cida relata uma confusão na qual se viu inadvertidamente e que fez com que ficasse presa por 3 anos sendo inocente. Fala que alguém colocou maconha em seu bolso, a polícia descobriu e a prendeu como traficante, iniciando outro período de sofrimento e desterro em sua vida. Presa com acusação de tráfico deixou seus filhos com a sogra para cumprir a sentença.

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Cida fala de sua depressão, de como já passou muito tempo depressiva, de como está agora depressiva. Conta que só se mantém de pé “pela misericórdia de Deus”, e que ouviu o pastor dizer que a pobreza facilita a entrada no “reino dos céus”, concluindo que esta é a única vantagem competitiva de ser pobre. Não sai de casa, só para o absolutamente necessário, sofre calada. Sobre a Portelinha, diz que é muito ruim morar ali, são muitos os problemas de saúde, as pessoas sofrem de diarreia e outras enfermidades por causa do esgoto. “As pessoas vivem aqui em cativeiro”.