Retratos do Fim da Linha

João Luiz

 JacareLR-91 JacareLR-90

João mora sozinho em sua pequena casa no fim do corredor do andar superior. Foi um dos invasores originais da fábrica há mais de 10 anos. Conta que participou desta invasão pois morava de aluguel no Jacarezinho. Hoje seu filho mora na casa ao lado com a própria família. João é aposentado por um problema de coluna, adquirido quando trabalhava como ajudante de entregas. Conta que seu sonho é trabalhar para si mesmo. Montar uma pequena birosca, uma pequena mercearia, mas que não venda bebidas alcoólicas, cachaça, pois ele é “da Igreja”. Quer vender refrigerantes, legumes e frutas. Mas que o que vai fazer mesmo diferença na sua vida é sair “deste lugar”. “Pra mim isso aqui é uma prisão. Quero abrir a janela e ver o mundo, não uma parede”. A casa de João fica num estreito corredor, e ele nos confidencia que já passou um período de sua vida preso. João comenta que imagina que o governo construirá um prédio no terreno da antiga fábrica e que os moradores serão reassentados no mesmo terreno. Sonha com seu pequeno comércio no andar térreo do novo prédio. “Não quero mais passar por exploração no trabalho, quero trabalhar pra mim, já fui muito humilhado no trabalho”. Perguntado que tipo de humilhação sofreu, responde imediatamente – “O salário!”. Neste momento João se inflama e faz um discurso de crítica e reivindicação social – “Quero curtir minhas netinhas. O problema do trabalhador como meu filho é sair de cedo de manhã e voltar tarde da noite. Você sai antes dos seus filhos acordarem e chega depois que estão dormindo. Não quero viver só de trabalho. As pessoas precisam de lazer. Quero ter uma residência fixa, pois isso aqui é uma invasão. Ter uma vida digna, ter o correio chegando na minha porta. Quero um lar. Quero um lugar para ficar estabilizado e descansar minha cabeça. Quero uma vida digna. Chega de humilhação!”.