Retratos do Fim da Linha

Maria

Maria de Fátima habita com seu marido e um filho adotivo o pior espaço disponível para viver da Adonis, talvez até do Bairro do Jacaré, e quiçá um dos piores da cidade inteira. Faz isso com uma impressionante vivacidade, sorriso fácil e elevação moral. Este espaço que sua família ocupa fica no primeiro andar da antiga fábrica, onde não entra luz, nem ventilação, e ao mesmo tempo é a fossa do andar de cima, destino dos esgotos alheios. Enquanto Maria fala, na frente de sua casa de alvenaria de bom padrão, é possível notar, ouvir os sons, das águas pútridas fazendo o percurso de quatro metros entre o andar de cima e o chão. O forte odor ácido é repugnante, agravado pela falta de ventilação deste tipo de caverna urbana. Mas nem sempre foi exatamente assim, quando Maria chegou as condições eram melhores.

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Tudo piorou após um incêndio ocorrido cerca de 5 anos atrás. Iniciado em uma das casas desta área do primeiro andar, logo se espalhou pelo espaço que era ocupado por 15 moradias. Maria estava em casa quando o fogo começo e relata o desespero de tentar sair e não conseguir pois a maçaneta da sua porta da frente estava fervente. Conseguiu finalmente sair pouco antes do fogo atingir sua casa. Infelizmente, este não foi o destino de uma família vizinha. Pai, mãe e filho morreram carbonizados, pois não perceberam o incêndio. Maria relata que as autoridades chegaram, as televisões chegaram, interditaram o lugar, mas para os moradores não foi dada nenhuma outra opção além de ficar ali mesmo, e foi o que fizeram. Ficaram, Maria ficou. Seguiu vivendo numa caverna urbana, numa espécie de cena de crime, acompanhada de muitos insetos, animais, esgoto, estigmas, mas sem perder a alegria.

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Maria que trabalha limpando hospital através numa firma de limpeza diz – “A gente mora dentro da fossa. Tô aqui por que não tenho condições, mas meu filho nunca passou fome”.