Retratos do Fim da Linha

Helen

Helen chegou até a Inabú pois morava em Manguinhos de aluguel e não conseguiu manter os custos da moradia. Além de tudo, relata que a situação ficou muito perigosa, tendo sido ela baleada dentro da própria casa num dia rotineiro de confrontos entre policiais e traficantes. Depois de ter se recuperado sem sequelas uma amiga mencionou a invasão desta fábrica, então Helen e o marido decidiram se mudar. “Pra sair do aluguel, eu fui”, diz ela. Quando chegou ao prédio, há 4 anos, as condições eram inabitáveis, sem luz, sem água e muita sujeira no antigo abatedouro de aves industrial. Foi a segunda moradora a chegar, e escolheu um espaço na área interna do segundo andar do prédio. Fala que é um exercício de sobrevivência viver onde vive – “Tem hora que chega a ser subumano”. Sonha em viver num “lugar decente, digno”.

Deixou o interior de Pernambuco em 1975 em direção ao Rio sozinha e em busca de melhores condições de vida. Conta eu a único espaço que o mercado de trabalho lhe proporcionou foi “casa de família”, trabalhando como doméstica. “No Norte as pessoas não botam os filhos para estudar”. Helen praticamente não teve educação formal em sua vida, no entanto, a clareza com que se expressa e a força de suas opiniões indicam uma pessoa muito cultivada. “A vida pra mim não foi nada fácil. Todo dia que acordo é uma vitória. Mesmo num lugar ruim, minha casa é meu castelo”. Descreve que hoje, no Nordeste do Brasil a situação melhorou para os mais pobres, por conta do “Bolsa Família”. Helen mora com o marido e um filho na Inabú. Hoje trabalha como cozinheira num restaurante.

Sobre um possível reassentamento desta antiga fábrica para um prédio novo, comenta que viu isto acontecer em Manguinhos e o processo apresentou muitas falhas. “Fizeram os prédios e largaram pra lá. Tem pessoas que não estão preparadas, pois tem um limite na educação. É preciso manter o local limpo e outras coisas, mas as pessoas não estão preparadas. Precisam ser ensinadas, ter um acompanhamento. Não dá pra escutar o som alto 7 horas da manhã como fazem aqui. Não dá pra arrastar os móveis a noite”.

Relata que o serviço de saúde da Clínica da Família a atende bem, e faz até acompanhamento na casa dela, que é hipertensa. No entanto, a dengue é um problema grave na invasão, que até caso de meningite com morte já teve. O esgoto é a céu aberto, todos tem contato direto. “Nós somos seres humanos, somos gente precisando de ajuda. Só Deus mesmo pra cuidar da gente”. Helen é uma mulher de fé, faz este relato no dia de seu padroeiro, Ogum, ou São Jorge, no sincretismo brasileiro.