Retratos do Fim da Linha

Elisabeth

Quando cheguei aqui, cheguei no fundo do poço. Tinha muito lixo, a firma tinha acabado de falir. Tinha muito rato. Foi muita luta, muito sofrimento, muito sufoco. Sou da Paraíba, trabalhava numa gráfica. Tive um problema de saúde, fiquei sem trabalho e sem casa. Deitava e pedia a Deus pra me mostrar um lugar. Uma amiga veio e vim com ela. Aqui era tão feio, mas falei, é melhor que na rua. Falei pro Elias (o marido) – arrumei um lugar, é feio mas eu vou. É melhor que enfrentar a dona da casa (proprietária). Só trouxe a geladeira e as roupas. Fez 16 anos que estou aqui. Tinha muito mosquito. Tinha muito óleo queimado no piso, pra limpar foi uma luta. Só vim pra cá porque minha necessidade foi muito grande. O marido também estava desempregado. Ele ganhava 190 e o aluguel era 170 (choro). Não há vitória sem luta. Quanto maior a luta maior a vitória. Espero que o milagre de sair daqui (reassentamento) aconteça. Diziam que eu tinha ido morar com os mendigos. Quando a pessoa tem um emprego ela tem muito amigos. Perdeu o emprego acabou (amigos). Morava há 8 anos numa casa antes de vir pra cá. Ainda paguei o que fiquei devendo. Vim escondido porque era muito feio. Diziam que a draga ia passar e cortar-me no meio. Peguei madeira numa antiga favela que saiu (para construir seu barraco). Diziam que iam botar fogo. Eu tinha muito medo daqui. Os ratos eram muito grandes! Eles queriam enfrentar a gente. Tenho pavor desses bichos, nem falo o nome deles!”

Elisabeth, como descrito acima, foi uma das primeiras invasoras da Direne. Criou seus filhos nesta antiga fábrica. Ela ocupa um espaço misto entre área externa e interna das ruínas. Tem um pequeno jardim que transborda verde. Conta que começou quando a vizinha de cima jogou umas sementes no seu pequeno quintal. Hoje tem um pé de aroeira e diversas plantas medicinais. O relato de Elisabeth é um pouco a síntese do que é habitar uma fábrica abandonada…

Comentário estendido

Chegando se defronta com a inumanidade do ambiente. Um local que era próprio da produção química industrial, onde se forjavam utensílios plásticos da vida moderna. Onde o chão é composto de uma espessa camada de óleo queimado, constituindo superfície o mais distante possível do conforto humano. O escuro das ruínas era dominado por hordas de ratos destemidos. Foi necessária muita coragem e suor e mais suor, e muita concentração e muita fé para transformar o cenário.

São os problemas de saúde, o desemprego, desavenças que carregam as pessoas solidariamente para estes prédios. O dilema central é entre o horror de habitar o inóspito, a destruição, e o pavor quanto às inconsequências e indignidade de morar na rua. Chegar ao ponto de ter apenas estas duas opções, e tendo uma família, é, paradoxalmente, o que faz decolar o ímpeto necessário pra ficar na fábrica e evitar a rua. E claro, não nos esqueçamos das “relações sociais” que forçaram a deslocação, os alugueis atrasados, as brigas e ameaças. Uma vez instalados na fábrica outras relações seguem a pressionar a honra, aquelas que apontam o dedo a lembrar do rebaixamento social que a condição de invasor representa. As pessoas passam uma vida nesta situação, acostumam-se para não sofrer demais. É o salário que não chega perto de cobrir as despesas, não há cobertura. É viver no habitat por excelência dos mosquitos, onde os animais urbanos se proliferam. Mas a transformação progressiva do espaço, as adaptações criativas da estrutura, constroem uma sensação de pertencimento suficiente para se equilibrar e descansar um pouco. Mesmo assim nunca se chega ao conforto mínimo, em pouco tempo os esgotos improvisados estão todos entupidos, as chuvas sempre colocando tudo em risco, o lixo se acumulando. O emprego que cisma não aparecer, os amigos de outrora sumindo, que já não te valorizam como antes. Você segue, mas não se esquece das dívidas…, pagá-las é imperativo. O sentimento é também de risco de vida quando se invade uma fábrica – polícia, capangas, perigosíssimos empresários enfurecidos, fogo, despejo, colapso. Chega-se com pouco, monta-se o teto com restos. Enfrentam-se muitos demônios e monstros, materiais e imateriais. Muita fé pra afastar tanto rato…