Adonis

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Adonis é uma antiga fábrica de roupas masculinas. Sofreu um incêndio há 20 anos e foi abandonada, sendo logo invadida. Cerca de 50 famílias do local têm promessa de reassentamento feita pelo Governo do Estado.

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Carlos Francisco

Carlos é um dos mais antigos moradores da Comunidade do Adonis, se aproximando de vinte anos no local, apesar de não conseguir precisar quanto tempo. Mora no terceiro e último andar da antiga fábrica, num barraco de madeira com exposição ao sol. Chegou neste local pois perdeu a casa onde morava, “por problemas de herança”. É o único responsável por cinco filhos, sendo um deles deficiente. Sua esposa faleceu há sete anos. Conta que sua maior questão com o lugar onde vive é a falta de água corrente. O jeito é estocar água em grandes garrafas, cada uma servindo a um propósito específico: cozinhar, descarga e banho. Está há seis anos desempregado, desde que foi demitido da fábrica de cigarros Souza Cruz, que foi mais uma a fechar as portas na região. A numerosa família sobrevive das transferências do Bolsa Família. Sua maior projeção em relação a um possível reassentamento é morar em local que tenha água corrente.

 

Luciene

Luciene chegou há treze anos à Adonis vinda de uma favela próxima chamada Marlene. Diz ter feito um bom negócio, vendeu um quarto na Marlene e comprou dois na Adonis. Mora no último andar da fábrica com uma filha e dois netos. É originária de João Pessoa, Paraíba, de onde saiu para o Rio há 13 anos para ajudar a filha a criar seus netos. Conta que na sua pequena casa de alvenaria vende bala, sacolé, sabão e cigarro. “Para as pessoas não precisarem descer, eu vendo aqui mesmo”. A filha trabalha e elas também contam com o Bolsa Família. A mulher avalia que sua vida no Rio é melhor do que na Paraíba. Comenta que a Clínica da Família vai até sua casa e isto é muito bom. Sobre as condições de vida no local diz que o prédio está caindo, pois já sofreu dois incêndios, num deles, ressalta, “morreu uma família inteira”.

Andrea

Andrea mora há sete anos na Adonis. Veio de um abrigo público localizado na Ilha do Governador, onde morava com dois filhos. Por conta de uma separação litigiosa foi encaminhada pelo estado para este abrigo. Lá conheceu seu atual companheiro, que já tinha um espaço no último andar da Adonis, “nos envolvemos, assumimos um compromisso”. Explica que não veio para ficar, mas foi ficando, pois “tinha que morar em algum lugar”, no entanto, sempre com uma intenção provisória. Trabalha como diarista, mas já foi auxiliar de produção numa fábrica e operadora de caixa num supermercado. Conta que saiu do mercado pela tamanha exigência de carga horária.

Sobre a Adonis Andrea é muito clara. – “Aqui não é um lugar que se dê pra morar. Não tem água. Corre o risco de desabar, a estrutura está muito frágil depois do incêndio no andar de baixo. A gente quer muito sair daqui, mas tem que esperar o governo reassentar, senão perdemos a nossa casa para outras pessoas. É um estresse terrível, no sentido psicológico”.

Seus filhos estudam numa escola beneficente de base neopentecostal. Andrea está completando seus estudos à noite numa escola estadual. – “Na minha adolescência tinha o sonho de entrar pra Marinha, mas me casei cedo, fui muito precoce. Quero estudar para conseguir algo melhor, me encaixar na sociedade. Quero fazer um técnico em laboratório. Estudo também pelos meus filhos, para ser um exemplo de que nunca é tarde para fazer o que a gente quer”.

 

Roseneide

Roseneide mora há cerca de 10 anos na Adonis. Veio para este local com 5 filhos e “sem marido, Graças a Deus”. Ela vivia antes em uma favela na região de Manguinhos, onde residia na casa da vó. Um conhecido ofereceu o espaço no teto da antiga fábrica para que ela construísse a casa feita com restos de materiais em que hoje vive com sua prole. Para ela, a mudança foi muito boa, pois “ainda que seja de tábua, molha mais dentro do que fora, é meu esse canto”. Ela trabalhava até um mês atrás como operadora de máquinas numa fábrica de plásticos muito próxima de onde mora, mas foi dispensada sem saber a razão.

A mulher comenta que ao lado do fato de que a estrutura da antiga fábrica está rachada, correndo risco de desabar, o outro problema principal de se viver ali é o convívio com esgoto. Fala que “Deus é que está segurando todo mundo” neste prédio. Não vê a hora de sair deste local com seus filhos, ao menos para um lugar provisório, pago com aluguel social.

 

Maria

Maria de Fátima habita com seu marido e um filho adotivo o pior espaço disponível para viver da Adonis, talvez até do Bairro do Jacaré, e quiçá um dos piores da cidade inteira. Faz isso com uma impressionante vivacidade, sorriso fácil e elevação moral. Este espaço que sua família ocupa fica no primeiro andar da antiga fábrica, onde não entra luz, nem ventilação, e ao mesmo tempo é a fossa do andar de cima, destino dos esgotos alheios. Enquanto Maria fala, na frente de sua casa de alvenaria de bom padrão, é possível notar, ouvir os sons, das águas pútridas fazendo o percurso de quatro metros entre o andar de cima e o chão. O forte odor ácido é repugnante, agravado pela falta de ventilação deste tipo de caverna urbana. Mas nem sempre foi exatamente assim, quando Maria chegou as condições eram melhores.

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Tudo piorou após um incêndio ocorrido cerca de 5 anos atrás. Iniciado em uma das casas desta área do primeiro andar, logo se espalhou pelo espaço que era ocupado por 15 moradias. Maria estava em casa quando o fogo começo e relata o desespero de tentar sair e não conseguir pois a maçaneta da sua porta da frente estava fervente. Conseguiu finalmente sair pouco antes do fogo atingir sua casa. Infelizmente, este não foi o destino de uma família vizinha. Pai, mãe e filho morreram carbonizados, pois não perceberam o incêndio. Maria relata que as autoridades chegaram, as televisões chegaram, interditaram o lugar, mas para os moradores não foi dada nenhuma outra opção além de ficar ali mesmo, e foi o que fizeram. Ficaram, Maria ficou. Seguiu vivendo numa caverna urbana, numa espécie de cena de crime, acompanhada de muitos insetos, animais, esgoto, estigmas, mas sem perder a alegria.

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Maria que trabalha limpando hospital através numa firma de limpeza diz – “A gente mora dentro da fossa. Tô aqui por que não tenho condições, mas meu filho nunca passou fome”.

 

Maria Rosane

Já passaram 12 anos desde que Maria Rosane chegou à Adonis. Veio diretamente do Rio Grande do Norte, e ficou por ali, pois não tinha trabalho em opção. Há cinco anos seu marido retornou para o Nordeste com dois filhos do casal. Ela ficou com o terceiro e mais novo deles. Comenta que as condições de vida são muito precárias, principalmente quando chove. “Não vejo a hora de sair daqui”.

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