Antiga Company

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A Antiga Company é uma invasão que reúne cerca de 50 famílias. O prédio, em estilo industrial da década de 1960, era originalmente uma fábrica de roupas jovens, surfwear, focada num público de classe média, chamada Company. São dois pavimentos, o primeiro pouco iluminado, é ventilado apenas para as moradias coladas ao muro externo. O segundo pavimento, acessado por íngreme escada, é, na verdade, o telhado da antiga fábrica, que se tornou espaço de moradia.

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Cristina

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Cristina não mora na Antiga Company, no entanto 8 familiares seus habitam a antiga fábrica de roupas jovens. A senhora não mora oficialmente, mas passa seus dias ali, cuidando de uma neta com problemas mentais. Cristina tem uma fala acelerada. Conta que fez diversas melhorias na entrada da invasão desde que começou a frequentar o lugar há 5 anos. A única entrada era muito degradada mas com a ajuda de Cristina os moradores conseguiram melhorar o piso e organizar relativamente os esgotos. Sua filha chegou à invasão pois queria morar sozinha. Ela ajudou a mesma a comprar o espaço que ocupa. Enquanto a filha trabalha Cristina cuida da neta que frequenta algumas vezes por semana um centro de reabilitação. A mulher é chamada de “síndica” por alguns moradores do local, por sua disponibilidade de articulação. Ela também é quem recebe as correspondências e as entrega aos moradores. São 45 famílias que residem neste local. Comenta que a situação da estrutura do prédio é precária, com dois pavimentos, o andar de cima encontra-se sobrecarregado. O medo de desabamento é constante. Conta que são muitas infiltrações, que as moradias do andar térreo sofrem com vazamentos dos banheiros de cima e quando chove é um temor generalizado de colapso da estrutura. Conta que ficou 8 meses internada recentemente, e afirma que – “É estresse o tempo todo viver aqui”.

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Rosangela

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Faz três anos que esta jovem mulher veio viver na Antiga Company. Rosangela morava no Jacarezinho mas por conta do casamento e de um filho precisava de um espaço seu e desta forma chegou à invasão. Trabalha esporadicamente como faxineira, mas também já trabalhou em gráfica. Sobre as condições do local afirma que “a situação é meia braba mas a gente vai levando”. Tem o desejo de fazer um curso de informática. Diz que “é preciso imaginar”.

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Osmar, Juliana e o filho

O casal tem um filho e está nesta ocupação desde 2003. Juliana, que já trabalhou como camareira em hotel, veio da favela Mandela de Pedra, no Complexo de Manguinhos. Conta que se adaptou facilmente pois morava num local tão precário quanto este. Já seu marido diz que não achou nada fácil, ele veio do Jacarezinho e precisou se mudar pois não conseguia pagar o aluguel. No andar térreo, onde moram, não tem iluminação natural, e sua casa não tem janela. Foi necessária a instalação de um telhado, mesmo a casa estando na parte interna da invasão, para evitar infiltrações e alagamentos, o que funciona só em parte.

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Osmar é porteiro de um prédio na Tijuca. Conta que sente preconceito por morar onde mora, preconceito que é transmitido no olhar, segundo ele. No seu trabalho ninguém sabe de sua vida, de suas condições de moradia, então neste espaço o preconceito não aparece, se manifesta é na rua mesmo. “Somos desprezados por morar aqui. Muitos ali fora nos olham assim. Mas todos vamos, no fim, para o mesmo lugar, levar uma pá de barro na cara”. Quer sair dali para “ter uma vida adequada, não como a de muitos, mas digna”. Fala que seu filho, as crianças da área, precisam de espaços de esporte e lazer. Cita o caso da Vila Olímpica da Mangueira, acrescentando que muitas pessoas se mudam para a Mangueira por causa deste equipamento público.

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Marinaldo e a familia

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Marinaldo mora no segundo e último andar da antiga fábrica. Sua casa, como as outras deste trecho, está exposta ao tempo. É pai de cinco filhos, 4 meninas e um menino. Duas das meninas são adolescentes e filhas do primeiro casamento da esposa, mas as quais ele cria desde pequenas como suas. A família veio do interior Bahia em 2006. Morava de aluguel no Jacarezinho quando um amigo indicou a invasão como opção de moradia. Então Marinaldo comprou uma casa de madeira, adquirindo depois os dois barracos ao lado. Sua família prosperou neste período, reformou as casas que hoje são de alvenaria e acomodam bem sua grande família. Mesmo assim, sonha em oferecer melhores condições para os seus. Conta que quando chove o andar alaga todo e que a estrutura do prédio está muito frágil, “balança quando passam carros e caminhões na rua”. Está muito animado com a perspectiva de reassentamento oferecida de Governo do Estado.

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Rosane

Rosane, que é nascida e criada na região do Jacaré, relembra o período em que este bairro era um celeiro de empregos. Reclama especialmente da ausência de opções de esporte e lazer para as crianças. Mesmo assim, leva a vida com bastante alegria, focada no desenvolvimento de seus filhos, que sempre afirmam que um dia darão uma vida melhor a ela.

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Já fazem 10 anos que Rosane se mudou para a Antiga Company. Antes morava com a mãe na Matapi, outra invasão. Queria viver sozinha com seus filhos então fixou residência nesta invasão. Escutou que havia uma fábrica abandonada sendo invadida, agarrou a oportunidade e comprou com muita dificuldade um barraco no andar superior. Vive sozinha com três filhos, não tem marido. Trabalha como diarista, única atividade que exerceu na vida. Rosane é inconformada com as condições em que vive; sonha em oferecer melhores possibilidades para sua família. Queixa-se da grande quantidade de ratos que dividem o mesmo espaço com a população que habita a fábrica. Relata que quando chove é acometida de intenso temor, pois sabe da fragilidade da estrutura que sustenta muito mais peso do que foi projetada para suportar. Qualquer chuva provoca alagamentos que se infiltram pelo prédio e impedem a circulação. Relata o sufoco que é levar as crianças na escola em dias de chuva. Precisa pegar cada um dos filhos no colo e descer as perigosas escadas para evitar que estes se sujem. Diz que nestes momentos lança mão da fé – “Segura aí Jesus!”.

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Rosane

Rosane morava na Bahia, em Ubaitaba, há apenas 4 anos atrás quando chegou ao Rio. Diz que imaginava outra vida antes de aqui chegar. Foi mais difícil do que esperava a vida no Rio. Chegaram na invasão através de uma prima que também mora lá. Rosane vive com o marido e 4 filhos num pequeno quarto do andar superior. Nunca trabalhou, seu marido é servente de pedreiro. Não vê a hora de sair da antiga fábrica. Conta que sente muito medo quando chove. Conta que se sente desconfiada com as promessas de reassentamento feitas pelo governo – “Só acredito vendo!”. Sonha em morar num lugar onde possa se sentir segura com suas crianças.

João Luiz

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João mora sozinho em sua pequena casa no fim do corredor do andar superior. Foi um dos invasores originais da fábrica há mais de 10 anos. Conta que participou desta invasão pois morava de aluguel no Jacarezinho. Hoje seu filho mora na casa ao lado com a própria família. João é aposentado por um problema de coluna, adquirido quando trabalhava como ajudante de entregas. Conta que seu sonho é trabalhar para si mesmo. Montar uma pequena birosca, uma pequena mercearia, mas que não venda bebidas alcoólicas, cachaça, pois ele é “da Igreja”. Quer vender refrigerantes, legumes e frutas. Mas que o que vai fazer mesmo diferença na sua vida é sair “deste lugar”. “Pra mim isso aqui é uma prisão. Quero abrir a janela e ver o mundo, não uma parede”. A casa de João fica num estreito corredor, e ele nos confidencia que já passou um período de sua vida preso. João comenta que imagina que o governo construirá um prédio no terreno da antiga fábrica e que os moradores serão reassentados no mesmo terreno. Sonha com seu pequeno comércio no andar térreo do novo prédio. “Não quero mais passar por exploração no trabalho, quero trabalhar pra mim, já fui muito humilhado no trabalho”. Perguntado que tipo de humilhação sofreu, responde imediatamente – “O salário!”. Neste momento João se inflama e faz um discurso de crítica e reivindicação social – “Quero curtir minhas netinhas. O problema do trabalhador como meu filho é sair de cedo de manhã e voltar tarde da noite. Você sai antes dos seus filhos acordarem e chega depois que estão dormindo. Não quero viver só de trabalho. As pessoas precisam de lazer. Quero ter uma residência fixa, pois isso aqui é uma invasão. Ter uma vida digna, ter o correio chegando na minha porta. Quero um lar. Quero um lugar para ficar estabilizado e descansar minha cabeça. Quero uma vida digna. Chega de humilhação!”.

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