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Tais

Taís habita uma das áreas mais degradantes do Bairro do Jacaré. O antigo galpão, hoje sem telhas, que ocupa já fez parte da fábrica de plásticos, mas logo que abandonado foi invadido por animais. O local transformou-se num chiqueiro, ou curral, onde viviam porcos e cavalos. Saindo os porcos e cavalos entraram os humanos.

“Tô aqui há um ano, morava em Manguinhos. Separei (do marido) e tive que sair (da casa). Moro com 3 filhos (incluindo gêmeos recém-nascidos) e meu esposo. Aqui é o esgoto o pior”. Para chegar até a casa de Taís é preciso cruzar uma ponte de tábuas sobre a lama pútrida de esgoto.

Perguntada se tem algum sonho na vida Taís responde prontamente – “Sempre quis ser fotógrafa”.

Fabiana

Fabiana está próxima de uma década morando nos fundos de um prédio anexo à fábrica de plásticos. São nove anos neste papel de invasora de fábrica. Sua casa fica numa área aberta. Veio de Manguinhos, como muitos outros moradores. “Comprei isto aqui numa brincadeira com um amigo no baile (funk). Não pensava em vir morar aqui. Mas tive que sair da casa da minha mãe, acabei indo morar na casa dos outros. Vim pra cá com meus três filhos e o pai da minha filha mais nova. Quando cheguei tinha uma saída de esgoto dentro da casa. Joguei concreto dentro do esgoto. Aqui é muito mosquito, muito rato, o esgoto quando entope enche tudo”.

Fabiana que trabalha de auxiliar de serviços gerais, gostaria, se pudesse escolher, ter seu próprio negócio, “ser uma empresária”, ter um pequeno restaurante.

Elisabeth

Quando cheguei aqui, cheguei no fundo do poço. Tinha muito lixo, a firma tinha acabado de falir. Tinha muito rato. Foi muita luta, muito sofrimento, muito sufoco. Sou da Paraíba, trabalhava numa gráfica. Tive um problema de saúde, fiquei sem trabalho e sem casa. Deitava e pedia a Deus pra me mostrar um lugar. Uma amiga veio e vim com ela. Aqui era tão feio, mas falei, é melhor que na rua. Falei pro Elias (o marido) – arrumei um lugar, é feio mas eu vou. É melhor que enfrentar a dona da casa (proprietária). Só trouxe a geladeira e as roupas. Fez 16 anos que estou aqui. Tinha muito mosquito. Tinha muito óleo queimado no piso, pra limpar foi uma luta. Só vim pra cá porque minha necessidade foi muito grande. O marido também estava desempregado. Ele ganhava 190 e o aluguel era 170 (choro). Não há vitória sem luta. Quanto maior a luta maior a vitória. Espero que o milagre de sair daqui (reassentamento) aconteça. Diziam que eu tinha ido morar com os mendigos. Quando a pessoa tem um emprego ela tem muito amigos. Perdeu o emprego acabou (amigos). Morava há 8 anos numa casa antes de vir pra cá. Ainda paguei o que fiquei devendo. Vim escondido porque era muito feio. Diziam que a draga ia passar e cortar-me no meio. Peguei madeira numa antiga favela que saiu (para construir seu barraco). Diziam que iam botar fogo. Eu tinha muito medo daqui. Os ratos eram muito grandes! Eles queriam enfrentar a gente. Tenho pavor desses bichos, nem falo o nome deles!”

Elisabeth, como descrito acima, foi uma das primeiras invasoras da Direne. Criou seus filhos nesta antiga fábrica. Ela ocupa um espaço misto entre área externa e interna das ruínas. Tem um pequeno jardim que transborda verde. Conta que começou quando a vizinha de cima jogou umas sementes no seu pequeno quintal. Hoje tem um pé de aroeira e diversas plantas medicinais. O relato de Elisabeth é um pouco a síntese do que é habitar uma fábrica abandonada…

Comentário estendido

Chegando se defronta com a inumanidade do ambiente. Um local que era próprio da produção química industrial, onde se forjavam utensílios plásticos da vida moderna. Onde o chão é composto de uma espessa camada de óleo queimado, constituindo superfície o mais distante possível do conforto humano. O escuro das ruínas era dominado por hordas de ratos destemidos. Foi necessária muita coragem e suor e mais suor, e muita concentração e muita fé para transformar o cenário.

São os problemas de saúde, o desemprego, desavenças que carregam as pessoas solidariamente para estes prédios. O dilema central é entre o horror de habitar o inóspito, a destruição, e o pavor quanto às inconsequências e indignidade de morar na rua. Chegar ao ponto de ter apenas estas duas opções, e tendo uma família, é, paradoxalmente, o que faz decolar o ímpeto necessário pra ficar na fábrica e evitar a rua. E claro, não nos esqueçamos das “relações sociais” que forçaram a deslocação, os alugueis atrasados, as brigas e ameaças. Uma vez instalados na fábrica outras relações seguem a pressionar a honra, aquelas que apontam o dedo a lembrar do rebaixamento social que a condição de invasor representa. As pessoas passam uma vida nesta situação, acostumam-se para não sofrer demais. É o salário que não chega perto de cobrir as despesas, não há cobertura. É viver no habitat por excelência dos mosquitos, onde os animais urbanos se proliferam. Mas a transformação progressiva do espaço, as adaptações criativas da estrutura, constroem uma sensação de pertencimento suficiente para se equilibrar e descansar um pouco. Mesmo assim nunca se chega ao conforto mínimo, em pouco tempo os esgotos improvisados estão todos entupidos, as chuvas sempre colocando tudo em risco, o lixo se acumulando. O emprego que cisma não aparecer, os amigos de outrora sumindo, que já não te valorizam como antes. Você segue, mas não se esquece das dívidas…, pagá-las é imperativo. O sentimento é também de risco de vida quando se invade uma fábrica – polícia, capangas, perigosíssimos empresários enfurecidos, fogo, despejo, colapso. Chega-se com pouco, monta-se o teto com restos. Enfrentam-se muitos demônios e monstros, materiais e imateriais. Muita fé pra afastar tanto rato…

Luzia

“Quando eu vim parar aqui tava boa (de saúde), mas tive um AVC. Andei a pé até a UPA e foi muito bom (o atendimento)”. D. Luzia se recuperou do seu acidente vascular cerebral e hoje não tem sequelas aparentes. Conta que chegou à Direne há três anos, pois morava de aluguel. Hoje mora com o filho em espaço adaptado de uma antiga sala da fábrica de plásticos. “Comprei aqui, pensando que um dia iam tirar a gente”. Luzia nasceu na Paraíba e veio para o Rio quando tinha apenas 17 anos. “Vim com meu tio. Ele me deixou, fiquei sozinha. Tenho 3 filhos”. Comenta que não tem nada a dizer sobre as condições de habitação da Direne. “Aqui é um ajudando o outro. Tô com Deus. Vou para a praia de Copacabana vender bala de côco. Sempre trabalhei em casa de família. Como trabalhei…”.

Katia

Katia é uma das moradoras mais antigas da Direne, faz uma estimativa de 20 anos desde que chegou à ocupação. Mora com o marido e dois filhos numa adaptação dos restos de construção da antiga fábrica de utensílios plásticos. Ela menciona que morava com a mãe no Jacarezinho e partiu pra a Direne para ter um espaço para sua própria família. “Pra mim foi melhor, ganhei minha privacidade”. Katia comenta que as condições de vida na Direne são precárias, “mas a gente vai vivendo, agora, por exemplo, tá sem água aqui, ela chega só à noite, quando chega. Tô vendo que em breve vamos sair daqui. Que bom, por que tá tudo caindo. Minha laje tá caindo”. Katia e todas as famílias 190 da Direne têm promessas de reassentamento para este ano de 2013 feitas pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro.

Andrea

Andrea morava no Jacarezinho antes de chegar à Direne. Na época vivia de aluguel, mas como muita gente ao seu redor, perdeu as condições de manter os pagamentos e acabou expulsa da casa junto com os filhos que tinha à época . Relembra que chegou à ocupação e arrumou um “cantinho” para a família, mas a situação era muito precária, pois todo o piso da área industrial, por algum motivo, estava coberto por uma abundante camada de óleo . Hoje reside com 8 filhos no primeiro andar de uma edificação que ainda resta da fábrica semidestruída. Andrea tem 33 anos, 8 filhos e 15 anos de vida em ocupação, ou seja, desde os 18 anos de vida habita este local improvisado. Sua larga família nuclear certamente se desenvolveu quase que toda dentro da Direne. Quantas gravidezes Andrea atravessou vivendo na antiga fábrica de utensílios plásticos?

“Não trabalho, vivo de Bolsa Família, recebo 500 e pouco e assim vou levando”. Andrea tem uma atitude bastante positiva da vida, especialmente para quem está na posição que está. Para um de seus filhos a vida é ainda mais dura, pois vive numa cadeira de rodas e aparenta ter sequelas de uma paralisia infantil. Andrea explica que há um ano o garoto era normal, mas foi atropelado por um caminhão justamente na porta da ocupação. Esta é uma região ainda industrializada e com a presença de muitos veículos pesados. Descreve que o garoto dos seus 15 anos chegou a perder massa encefálica, sobreviveu, mas ficou paralisado. Enquanto Andrea detalha esta tragédia algumas vizinhas levam o garoto para passear. “Assim vou vivendo até ganhar o condomínio que o Governo está prometendo”.

“A gente tem que ser forte se não desaba”, diz Andrea, para logo complementar que leva toda esta situação sem suporte de familiares, não tem marido e sua mãe passou a viver como mendiga há alguns anos. O bom humor de Andrea enquanto narra dificuldades tão pesadas é chocante. “A gente tem que ser alegre, se não, não consigo. Vou ficar chorando num canto? Não vou”.

Carminha

“Agora tão olhando por nós!”, Carminha comenta em relação ao fato de estar sendo entrevistada.

Carminha veio da Bahia para o Rio há 15. Há 12 já mora na Direne, é uma das moradoras mais antigas. Morava no Jacarezinho mas era aluguel e não conseguiu manter. “Não era bom, mas pelo menos era um lugar”. Tem 4 filhos e marido, todos moram em um quarto no térreo do antigo prédio da fábrica.

Trabalha entregando panfletos, ou fazendo faxinas “quando tem”, ou seja esporadicamente. “Fora isso fico parada”, sem trabalhar.

Fala que viver na Direne é um “empurrar com a barriga. Muito esgoto e rato. Muita gente nos critica dizendo que aqui não é lugar pra morar. Mas se não for aqui, só temos a rua. Agora, graças a Deus, estamos esperando mudança… Criança aqui quase não brinca”.

Antonieta

Antonieta é paulista e chegou da capital de São Paulo há 3 anos, após ter se separado. Ela já havia morado no Rio em outras oportunidades, mas chegou até a Direne pois sua filha mora na ocupação. Alugou um pequeno quarto de alvenaria ao lado da filha, que fica na área aberta da antiga fábrica de plásticos. Diz que trabalhou a vida inteira “de faxina”, mas hoje em dia, por causa da idade, não consegue mais suportar fisicamente a função. Conta que paga sua aposentadoria pelo INSS, mas não sabe se vai conseguir receber, “pois Deus pode me chamar antes”.

Relata que foi muito difícil se adaptar às condições de vida da Direne.“A água entra dentro da casa da gente, o esgoto é aberto. E lá pra dentro é ainda pior” (em referência a outras habitações da ocupação). “É muito ruim morar aqui, mas o que vamos fazer, a gente precisa”.

Sonia

Sonia relata que chegou até a Direne vinda de Engenheiro Pedreira, nas redondezas de Japeri. Descreve como motivo de sua mudança de endereço uma briga familiar. Morava com os filhos, estes casaram e juntaram as famílias. Sonia se aborreceu com uma nora e saiu de casa. Já se passaram 13 anos desde então, foi uma das primeiras moradoras da ocupação. “Moro eu e Deus”. Sonia lembra das dificuldades iniciais que o grupo que ocupou a fábrica teve. Foram diversas tentativas de ocupação até se estabelecerem. “A polícia tirava e agente voltava, e assim foi”.

Sonia que hoje tem seu pequeno negócio, sempre trabalhou, a começar pela própria casa na infância. “Se não lutar não se tem nada”.

Sobre as condições do prédio, diz que a estrutura não está agüentando. E sobre a promessa de reassentamento, comenta – “Se vier (o reassentamento) a gente tem que sair, mas tem muita gente por aí pior que nós”.

Alexandra

Alexandra tem apenas 18 anos mas já vive na Inabú desde os 15 com seu marido e duas filhas. Uma das meninas, inclusive, nasceu na antiga fábrica. A família morava de aluguel na favela do Jacarezinho, mas após a perda de emprego do marido, eles precisaram encontrar outro lugar pra viver. Uma vizinha mencionou sobre a Inabú, então eles, que não tinham para onde ir, se juntaram à invasão do antigo abatedouro industrial. “Foi bom”, diz, referindo-se ao fato de não precisar mais pagar aluguel.

Sobre as condições de vida locais, reclama bastante da falta d’água e das quedas de energia, que “estragam as coisas da geladeira”. Estudou apenas até a terceira série, tendo já trabalhado em cozinhas e restaurantes. Hoje não exerce atividade profissional. Suas duas filhas frequentam creche municipal.

Um capítulo trágico de sua trajetória e ocorrido ali mesmo na ocupação, foi a queda que sofreu de uma laje. Lamentavelmente, estava grávida, grávida de 6 meses, e de gêmeos. Os bebês não sobreviveram…

Perguntada sobre sonhos, Alexandra fala que seu único sonho é ter uma casa de verdade para suas filhas. “Pra tudo penso primeiro na minha família”.

Carlos Willian

Carlos chegou há 3 anos na Inabú com sua família, mulher e dois filhos, pois “não tinha onde morar”, como afirma. Antes residia com seus irmãos, numa casa para várias famílias. Ele descreve as condições de vida na Inabú como extremamente precárias. Primeiro, ao chegar, ocupou um espaço no segundo andar da antiga fábrica, onde tinha muita umidade. Precisou, ou conseguiu, sair deste local somente após uma tragédia familiar. Outra criança nasceu, mas infelizmente morreu com 6 meses, segundo Willian, de “friagem”. “São muitas infiltrações, muito rato, muito mosquito”. Willian é aposentado e ganha um salário mínimo através do LOAS, benefício dado à indivíduos em alta vulnerabilidade social. Ressalta o péssimo atendimento do centro público de assistência social da região. Willian complementa sombriamente – “Não temo solução, só se decidir morrer”.

Maria e Tatiana

Mãe e filha chegaram à Inabú vindas do Rio do Ouro, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Nesta ocupação já fazem 4 anos. Maria trabalha como doméstica, e tem mais dois filhos além de Tatiana. Diz que comprou seu pedaço no terceiro andar do antigo abatedouro pois não tinha dinheiro para nada além disso. – “Isso aqui é horrível, só moro aqui porque preciso”.

Tatiana está grávida do primeiro filho, tem 22 anos. Perguntada se tem sonhos na vida, diz que não, que gostaria apenas de trabalhar, “com qualquer coisa”. Também se diz desconfiada das promessas de reassentamento feitas pelo Governo do Estado.

Lucilene

Lucilene chegou à Inabú em 2009. Veio da cidade de Macaparana, Pernambuco, assim como sua tia Helen que foi umas das primeiras moradoras da invasão. A tia cedeu parte do espaço que tinha para a sobrinha, que organizou um pequeno quarto com entrada independente para morar com os 3 filhos. Conta que deixou o interior do Nordeste principalmente porque seus avós faleceram e ela ficou “sem chão”, sentindo-se desamparada. Além do mais, relata que as condições de vida lá eram muito difíceis, tendo precisado morar de favor em vários lugares com seus filhos. “Passei muita coisa vivendo na casa de um e de outro. Meus filhos crescendo sem estrutura”. Comenta que no Nordeste só é bom “pra quem já tem o seu”. Hoje trabalha num lanchonete de fast food, e espera com expectativa a possibilidade de finalmente ter uma morada sua. “Se Deus quiser vou ter meu canto, minha casa”.

Helen

Helen chegou até a Inabú pois morava em Manguinhos de aluguel e não conseguiu manter os custos da moradia. Além de tudo, relata que a situação ficou muito perigosa, tendo sido ela baleada dentro da própria casa num dia rotineiro de confrontos entre policiais e traficantes. Depois de ter se recuperado sem sequelas uma amiga mencionou a invasão desta fábrica, então Helen e o marido decidiram se mudar. “Pra sair do aluguel, eu fui”, diz ela. Quando chegou ao prédio, há 4 anos, as condições eram inabitáveis, sem luz, sem água e muita sujeira no antigo abatedouro de aves industrial. Foi a segunda moradora a chegar, e escolheu um espaço na área interna do segundo andar do prédio. Fala que é um exercício de sobrevivência viver onde vive – “Tem hora que chega a ser subumano”. Sonha em viver num “lugar decente, digno”.

Deixou o interior de Pernambuco em 1975 em direção ao Rio sozinha e em busca de melhores condições de vida. Conta eu a único espaço que o mercado de trabalho lhe proporcionou foi “casa de família”, trabalhando como doméstica. “No Norte as pessoas não botam os filhos para estudar”. Helen praticamente não teve educação formal em sua vida, no entanto, a clareza com que se expressa e a força de suas opiniões indicam uma pessoa muito cultivada. “A vida pra mim não foi nada fácil. Todo dia que acordo é uma vitória. Mesmo num lugar ruim, minha casa é meu castelo”. Descreve que hoje, no Nordeste do Brasil a situação melhorou para os mais pobres, por conta do “Bolsa Família”. Helen mora com o marido e um filho na Inabú. Hoje trabalha como cozinheira num restaurante.

Sobre um possível reassentamento desta antiga fábrica para um prédio novo, comenta que viu isto acontecer em Manguinhos e o processo apresentou muitas falhas. “Fizeram os prédios e largaram pra lá. Tem pessoas que não estão preparadas, pois tem um limite na educação. É preciso manter o local limpo e outras coisas, mas as pessoas não estão preparadas. Precisam ser ensinadas, ter um acompanhamento. Não dá pra escutar o som alto 7 horas da manhã como fazem aqui. Não dá pra arrastar os móveis a noite”.

Relata que o serviço de saúde da Clínica da Família a atende bem, e faz até acompanhamento na casa dela, que é hipertensa. No entanto, a dengue é um problema grave na invasão, que até caso de meningite com morte já teve. O esgoto é a céu aberto, todos tem contato direto. “Nós somos seres humanos, somos gente precisando de ajuda. Só Deus mesmo pra cuidar da gente”. Helen é uma mulher de fé, faz este relato no dia de seu padroeiro, Ogum, ou São Jorge, no sincretismo brasileiro.

Maria Rosane

Já passaram 12 anos desde que Maria Rosane chegou à Adonis. Veio diretamente do Rio Grande do Norte, e ficou por ali, pois não tinha trabalho em opção. Há cinco anos seu marido retornou para o Nordeste com dois filhos do casal. Ela ficou com o terceiro e mais novo deles. Comenta que as condições de vida são muito precárias, principalmente quando chove. “Não vejo a hora de sair daqui”.

Maria

Maria de Fátima habita com seu marido e um filho adotivo o pior espaço disponível para viver da Adonis, talvez até do Bairro do Jacaré, e quiçá um dos piores da cidade inteira. Faz isso com uma impressionante vivacidade, sorriso fácil e elevação moral. Este espaço que sua família ocupa fica no primeiro andar da antiga fábrica, onde não entra luz, nem ventilação, e ao mesmo tempo é a fossa do andar de cima, destino dos esgotos alheios. Enquanto Maria fala, na frente de sua casa de alvenaria de bom padrão, é possível notar, ouvir os sons, das águas pútridas fazendo o percurso de quatro metros entre o andar de cima e o chão. O forte odor ácido é repugnante, agravado pela falta de ventilação deste tipo de caverna urbana. Mas nem sempre foi exatamente assim, quando Maria chegou as condições eram melhores.

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Tudo piorou após um incêndio ocorrido cerca de 5 anos atrás. Iniciado em uma das casas desta área do primeiro andar, logo se espalhou pelo espaço que era ocupado por 15 moradias. Maria estava em casa quando o fogo começo e relata o desespero de tentar sair e não conseguir pois a maçaneta da sua porta da frente estava fervente. Conseguiu finalmente sair pouco antes do fogo atingir sua casa. Infelizmente, este não foi o destino de uma família vizinha. Pai, mãe e filho morreram carbonizados, pois não perceberam o incêndio. Maria relata que as autoridades chegaram, as televisões chegaram, interditaram o lugar, mas para os moradores não foi dada nenhuma outra opção além de ficar ali mesmo, e foi o que fizeram. Ficaram, Maria ficou. Seguiu vivendo numa caverna urbana, numa espécie de cena de crime, acompanhada de muitos insetos, animais, esgoto, estigmas, mas sem perder a alegria.

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Maria que trabalha limpando hospital através numa firma de limpeza diz – “A gente mora dentro da fossa. Tô aqui por que não tenho condições, mas meu filho nunca passou fome”.

Roseneide

Roseneide mora há cerca de 10 anos na Adonis. Veio para este local com 5 filhos e “sem marido, Graças a Deus”. Ela vivia antes em uma favela na região de Manguinhos, onde residia na casa da vó. Um conhecido ofereceu o espaço no teto da antiga fábrica para que ela construísse a casa feita com restos de materiais em que hoje vive com sua prole. Para ela, a mudança foi muito boa, pois “ainda que seja de tábua, molha mais dentro do que fora, é meu esse canto”. Ela trabalhava até um mês atrás como operadora de máquinas numa fábrica de plásticos muito próxima de onde mora, mas foi dispensada sem saber a razão.

A mulher comenta que ao lado do fato de que a estrutura da antiga fábrica está rachada, correndo risco de desabar, o outro problema principal de se viver ali é o convívio com esgoto. Fala que “Deus é que está segurando todo mundo” neste prédio. Não vê a hora de sair deste local com seus filhos, ao menos para um lugar provisório, pago com aluguel social.

Andrea

 

Andrea mora há sete anos na Adonis. Veio de um abrigo público localizado na Ilha do Governador, onde morava com dois filhos. Por conta de uma separação litigiosa foi encaminhada pelo estado para este abrigo. Lá conheceu seu atual companheiro, que já tinha um espaço no último andar da Adonis, “nos envolvemos, assumimos um compromisso”. Explica que não veio para ficar, mas foi ficando, pois “tinha que morar em algum lugar”, no entanto, sempre com uma intenção provisória. Trabalha como diarista, mas já foi auxiliar de produção numa fábrica e operadora de caixa num supermercado. Conta que saiu do mercado pela tamanha exigência de carga horária.

Sobre a Adonis Andrea é muito clara. – “Aqui não é um lugar que se dê pra morar. Não tem água. Corre o risco de desabar, a estrutura está muito frágil depois do incêndio no andar de baixo. A gente quer muito sair daqui, mas tem que esperar o governo reassentar, senão perdemos a nossa casa para outras pessoas. É um estresse terrível, no sentido psicológico”.

Seus filhos estudam numa escola beneficente de base neopentecostal. Andrea está completando seus estudos à noite numa escola estadual. – “Na minha adolescência tinha o sonho de entrar pra Marinha, mas me casei cedo, fui muito precoce. Quero estudar para conseguir algo melhor, me encaixar na sociedade. Quero fazer um técnico em laboratório. Estudo também pelos meus filhos, para ser um exemplo de que nunca é tarde para fazer o que a gente quer”.

Luciene

Luciene chegou há treze anos à Adonis vinda de uma favela próxima chamada Marlene. Diz ter feito um bom negócio, vendeu um quarto na Marlene e comprou dois na Adonis. Mora no último andar da fábrica com uma filha e dois netos. É originária de João Pessoa, Paraíba, de onde saiu para o Rio há 13 anos para ajudar a filha a criar seus netos. Conta que na sua pequena casa de alvenaria vende bala, sacolé, sabão e cigarro. “Para as pessoas não precisarem descer, eu vendo aqui mesmo”. A filha trabalha e elas também contam com o Bolsa Família. A mulher avalia que sua vida no Rio é melhor do que na Paraíba. Comenta que a Clínica da Família vai até sua casa e isto é muito bom. Sobre as condições de vida no local diz que o prédio está caindo, pois já sofreu dois incêndios, num deles, ressalta, “morreu uma família inteira”.

Carlos Francisco

Carlos é um dos mais antigos moradores da Comunidade do Adonis, se aproximando de vinte anos no local, apesar de não conseguir precisar quanto tempo. Mora no terceiro e último andar da antiga fábrica, num barraco de madeira com exposição ao sol. Chegou neste local pois perdeu a casa onde morava, “por problemas de herança”. É o único responsável por cinco filhos, sendo um deles deficiente. Sua esposa faleceu há sete anos. Conta que sua maior questão com o lugar onde vive é a falta de água corrente. O jeito é estocar água em grandes garrafas, cada uma servindo a um propósito específico: cozinhar, descarga e banho. Está há seis anos desempregado, desde que foi demitido da fábrica de cigarros Souza Cruz, que foi mais uma a fechar as portas na região. A numerosa família sobrevive das transferências do Bolsa Família. Sua maior projeção em relação a um possível reassentamento é morar em local que tenha água corrente.

João Luiz

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João mora sozinho em sua pequena casa no fim do corredor do andar superior. Foi um dos invasores originais da fábrica há mais de 10 anos. Conta que participou desta invasão pois morava de aluguel no Jacarezinho. Hoje seu filho mora na casa ao lado com a própria família. João é aposentado por um problema de coluna, adquirido quando trabalhava como ajudante de entregas. Conta que seu sonho é trabalhar para si mesmo. Montar uma pequena birosca, uma pequena mercearia, mas que não venda bebidas alcoólicas, cachaça, pois ele é “da Igreja”. Quer vender refrigerantes, legumes e frutas. Mas que o que vai fazer mesmo diferença na sua vida é sair “deste lugar”. “Pra mim isso aqui é uma prisão. Quero abrir a janela e ver o mundo, não uma parede”. A casa de João fica num estreito corredor, e ele nos confidencia que já passou um período de sua vida preso. João comenta que imagina que o governo construirá um prédio no terreno da antiga fábrica e que os moradores serão reassentados no mesmo terreno. Sonha com seu pequeno comércio no andar térreo do novo prédio. “Não quero mais passar por exploração no trabalho, quero trabalhar pra mim, já fui muito humilhado no trabalho”. Perguntado que tipo de humilhação sofreu, responde imediatamente – “O salário!”. Neste momento João se inflama e faz um discurso de crítica e reivindicação social – “Quero curtir minhas netinhas. O problema do trabalhador como meu filho é sair de cedo de manhã e voltar tarde da noite. Você sai antes dos seus filhos acordarem e chega depois que estão dormindo. Não quero viver só de trabalho. As pessoas precisam de lazer. Quero ter uma residência fixa, pois isso aqui é uma invasão. Ter uma vida digna, ter o correio chegando na minha porta. Quero um lar. Quero um lugar para ficar estabilizado e descansar minha cabeça. Quero uma vida digna. Chega de humilhação!”.

Rosane

Rosane morava na Bahia, em Ubaitaba, há apenas 4 anos atrás quando chegou ao Rio. Diz que imaginava outra vida antes de aqui chegar. Foi mais difícil do que esperava a vida no Rio. Chegaram na invasão através de uma prima que também mora lá. Rosane vive com o marido e 4 filhos num pequeno quarto do andar superior. Nunca trabalhou, seu marido é servente de pedreiro. Não vê a hora de sair da antiga fábrica. Conta que sente muito medo quando chove. Conta que se sente desconfiada com as promessas de reassentamento feitas pelo governo – “Só acredito vendo!”. Sonha em morar num lugar onde possa se sentir segura com suas crianças.

Rosane

Rosane, que é nascida e criada na região do Jacaré, relembra o período em que este bairro era um celeiro de empregos. Reclama especialmente da ausência de opções de esporte e lazer para as crianças. Mesmo assim, leva a vida com bastante alegria, focada no desenvolvimento de seus filhos, que sempre afirmam que um dia darão uma vida melhor a ela.

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Já fazem 10 anos que Rosane se mudou para a Antiga Company. Antes morava com a mãe na Matapi, outra invasão. Queria viver sozinha com seus filhos então fixou residência nesta invasão. Escutou que havia uma fábrica abandonada sendo invadida, agarrou a oportunidade e comprou com muita dificuldade um barraco no andar superior. Vive sozinha com três filhos, não tem marido. Trabalha como diarista, única atividade que exerceu na vida. Rosane é inconformada com as condições em que vive; sonha em oferecer melhores possibilidades para sua família. Queixa-se da grande quantidade de ratos que dividem o mesmo espaço com a população que habita a fábrica. Relata que quando chove é acometida de intenso temor, pois sabe da fragilidade da estrutura que sustenta muito mais peso do que foi projetada para suportar. Qualquer chuva provoca alagamentos que se infiltram pelo prédio e impedem a circulação. Relata o sufoco que é levar as crianças na escola em dias de chuva. Precisa pegar cada um dos filhos no colo e descer as perigosas escadas para evitar que estes se sujem. Diz que nestes momentos lança mão da fé – “Segura aí Jesus!”.

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Marinaldo e a familia

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Marinaldo mora no segundo e último andar da antiga fábrica. Sua casa, como as outras deste trecho, está exposta ao tempo. É pai de cinco filhos, 4 meninas e um menino. Duas das meninas são adolescentes e filhas do primeiro casamento da esposa, mas que ele cria desde pequenas como suas. A família veio do interior Bahia em 2006. Morava de aluguel no Jacarezinho quando um amigo indicou a invasão como opção de moradia. Então Marinaldo comprou uma casa de madeira, adquirindo depois os dois barracos ao lado. Sua família prosperou neste período, reformou as casas que hoje são de alvenaria e acomodam bem sua grande família. Mesmo assim, sonha em oferecer melhores condições para os seus. Conta que quando chove o andar alaga todo e que a estrutura do prédio está muito frágil, “balança quando passam carros e caminhões na rua”. Está muito animado com a perspectiva de reassentamento oferecida de Governo do Estado.

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Osmar, Juliana e o filho

O casal tem um filho e está nesta ocupação desde 2003. Juliana, que já trabalhou como camareira em hotel, veio da favela Mandela de Pedra, no Complexo de Manguinhos. Conta que se adaptou facilmente pois morava num local tão precário quanto este. Já seu marido diz que não achou nada fácil, ele veio do Jacarezinho e precisou se mudar pois não conseguia pagar o aluguel. No andar térreo, onde moram, não tem iluminação natural, e sua casa não tem janela. Foi necessária a instalação de um telhado, mesmo a casa estando na parte interna da invasão, para evitar infiltrações e alagamentos, o que funciona só em parte.

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Osmar é porteiro de um prédio na Tijuca. Conta que sente preconceito por morar onde mora, preconceito que é transmitido no olhar, segundo ele. No seu trabalho ninguém sabe de sua vida, de suas condições de moradia, então neste espaço o preconceito não aparece, se manifesta é na rua mesmo. “Somos desprezados por morar aqui. Muitos ali fora nos olham assim. Mas todos vamos, no fim, para o mesmo lugar, levar uma pá de barro na cara”. Quer sair dali para “ter uma vida adequada, não como a de muitos, mas digna”. Fala que seu filho, as crianças da área, precisam de espaços de esporte e lazer. Cita o caso da Vila Olímpica da Mangueira, acrescentando que muitas pessoas se mudam para a Mangueira por causa deste equipamento público.

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Rosangela

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Faz três anos que esta jovem mulher veio viver na Antiga Company. Rosangela morava no Jacarezinho mas por conta do casamento e de um filho precisava de um espaço seu e desta forma chegou à invasão. Trabalha esporadicamente como faxineira, mas também já trabalhou em gráfica. Sobre as condições do local afirma que “a situação é meia braba mas a gente vai levando”. Tem o desejo de fazer um curso de informática. Diz que “é preciso imaginar”.

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Cristina Maria

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Cristina não mora na Antiga Company, no entanto 8 familiares seus habitam a antiga fábrica de roupas jovens. A senhora não mora oficialmente, mas passa seus dias ali, cuidando de uma neta com problemas mentais. Cristina tem uma fala acelerada. Conta que fez diversas melhorias na entrada da invasão desde que começou a frequentar o lugar há 5 anos. A única entrada era muito degradada mas com a ajuda de Cristina os moradores conseguiram melhorar o piso e organizar relativamente os esgotos. Sua filha chegou à invasão pois queria morar sozinha. Ela ajudou a mesma a comprar o espaço que ocupa. Enquanto a filha trabalha Cristina cuida da neta que frequenta algumas vezes por semana um centro de reabilitação. A mulher é chamada de “síndica” por alguns moradores do local, por sua disponibilidade de articulação. Ela também é quem recebe as correspondências e as entrega aos moradores. São 45 famílias que residem neste local. Comenta que a situação da estrutura do prédio é precária, com dois pavimentos, o andar de cima encontra-se sobrecarregado. O medo de desabamento é constante. Conta que são muitas infiltrações, que as moradias do andar térreo sofrem com vazamentos dos banheiros de cima e quando chove é um temor generalizado de colapso da estrutura. Conta que ficou 8 meses internada recentemente, e afirma que – “É estresse o tempo todo viver aqui”.

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Alex

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Alex foi um dos primeiros moradores do Carandiru, fixando residência no local há 12 anos. Chegou até a invasã0 pois constituiu família e não tinha como pagar aluguel. Sua casa está atualmente inabitável, o esgoto invadiu completamente casas vizinhas que ficam no prédio da antiga fábrica, também afetando seu espaço, localizado no antigo galpão. Conseguiu emprestada uma pequena casa de madeira em frente à sua e vive ali precariamente. É ajudante de serralheiro, mas está desempregado. Trabalha fazendo bicos, coletando material reciclado, desmontando ou consertando coisas velhas. Mostra um forno elétrico velho que está consertando e pretende vender por 20 reais. É casado e tem três filhos. Reclama muito dos mosquitos, mostrando diversas marcas em seu filho recém-nascido, Alex Junior. Comenta que conta com a ajuda de igrejas para se sustentar, católicas e evangélicas que eventualmente oferecem a ele pequenos trabalhos ou alimentos. Diz receber 32 reais do Programa Bolsa Família por mês. Só consegue sobreviver com a solidariedade alheia. “Aqui os vizinhos são muito unidos”.

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Cirlei

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Cirlei chegou há 8 anos no Carandiru vinda de uma violenta experiência imobiliária. Morava no Jacarezinho e vendeu sua casa em busca de uma vida mais calma no Conjunto Nova Sepetiba, Zona Oeste. Lá passou alguns meses até que foi expulsa do novo lar por um mafioso local. Conta que saiu para fazer compras e quando voltou outras pessoas ocupavam sua casa. O mafioso havia vendido, como se fosse dele, a nova morada de Cirlei para outras pessoas. Como consolo o homem disse a Cirlei que ocupasse outra casa de outra pessoa mas que não dissesse que tinha sua autorização. A mulher ficou sem teto e sem  dinheiro, acabando no Carandiru pela ajuda de uma amiga. Hoje vive com uma neta e uma filha adotiva, que acolheu pois a família que morava ali mesmo no Carandiru a “maltratava”. A criança foi “dada” a ela pela família.

Cirlei diz que faltam opções de lazer e esporte para as crianças da região. Reclama da ausência de ONGs e projetos sociais. “As crianças não tem como se desenvolver”.

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Margarida

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Dona Margarida tem 67 anos, é viuvá, mora com 5 netos e duas filhas num barraco localizado no antigo galpão da fábrica, galpão do qual resta hoje apenas o espaço e a estrutura metálica que sustentava o telhado. É originária da região de Cataguases em Minas Gerais, de onde veio criança fugindo da miséria da zona rural. Dona Margarida levanta com dificuldade do sofá. Diz que está muito cansada pois passa o dia caminhando. É catadora de material reciclado e a dureza da atividade abala a sua já frágil saúde. É diabética, tendo sofrido dois infartos há não muito tempo. Apesar da idade para se aposentar conta que não consegue o benefício pois falta uma certidão de casamento que perdeu quando sua antiga casa veio à baixo. Morava numa casa estava muito velha no Jacarezinho e estadesabou após uma chuva forte, soterrando seus pertences e documentos. Foi parar no Carandiru com a ajuda do filho. Faz elogios à saúde prestada no local pela Clínica da Família, descreve que após uma internação foi atendida diariamente em casa por agentes de saúde. “A doença é muito dura mas não é invencível”.

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Rosemari

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Rosemari chegou ao Carandiru há 8 anos. Morava com uma amiga por muitos anos, mas depois de uma briga esta a expulsou de casa, deixando-a na rua. Hoje mora num quarto com a filha de 11 anos no terceiro e último andar do Carandiru. Não tem outros familiares ou parentes.

É catadora de lixo, cata latinhas e garrafas, e é assim que sustenta sua filha. Diz que não tem vergonha de sua profissão mas já sofreu muito preconceito no passado, quando começou nesta atividade. Hoje fala que já está acostumada e não percebe mais o preconceito das ruas com os catadores.

Ana lucia

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Ana Lucia mora no segundo andar do prédio abandonado. O pequeno espaço que vive é uma rústica divisão, feita com materiais precários, da área da antiga fábrica. Um buraco na parede que dá para a movimentada rua da frente garante a entrada de luz e ar. Conta que é afetada por muitos mosquitos e ratos, que sua saúde muito frágil, sendo portadora de uma diabetes de altos níveis. É acompanhada no posto de saúde próximo. Veio do Estado do Espírito Santo para o Rio há 30 anos, acompanhada de 12 irmãos. Comenta que todos os irmãos são falecidos. Ana chegou ao Carandiru depois de perder a casa onde morava. Residia com a mãe no Jacarezinho, mas quando esta faleceu, há 8 anos, a casa ficou com os filhos do padrasto e ela ficou sem lugar.

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Ana descreve, comovidamente, que mora com duas netas, mas estas estão atualmente internadas num abrigo. A mãe das meninas, sua filha, é consumidora de crack e moradora de rua. Por conta da diabetes Ana passou dois meses internada e as crianças precisaram ir para um abrigo público. Fala que vai com frequência ao abrigo para levar comida para as netas.

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Sobre o Carandiru ressalta que sonha muito em sair dali, pois a questão dos mosquitos é gravíssima. Também tem problemas com abastecimento de água que nem sempre chega até sua casa, precisando ela subir as perigosas escadas com latas d’água. Em dias de chuva a água misturada a esgoto invade a casa, o que causa muitas doenças nas crianças. “Aqui é lugar pra gente pedir socorro!”.

Sonia Maria

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Sonia, que morava no andar de cima do prédio desta invasão, precisou se mudar para um quarto escuro e não ventilado no andar térreo.  Sua casa do último andar está em perigo, ameaçando ruir. O quarto onde mora atualmente é uma divisão improvisada de uma sala da antiga fábrica. São dois cômodos divididos por uma leve cortina. O feijão está no fogo e a televisão em altura máxima enquanto fala. Já está há 7 anos no Carandiru, antes morava no Morro do Azul, no Jacarezinho.

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Se mudou para a invasão pois não podia mais pagar aluguel. Mora sozinha com 4 crianças e uma adolescente. Não tem marido. Trabalha esporadicamente como faxineira, diz que nunca teve sua carteira assinada. Faz muitas queixas do lugar onde vive, principalmente os esgotos que correm nos corredores; as infiltrações que descem pelo seu quarto; os alagamentos que sofre; os mosquitos que atacam a todos ferozmente.

Cida, Expedito e Patrick.

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Cida – Expedito, o Marido – Patrick, o Filho;

Cida mora há 4 anos na Portelinha. Sua casa é um barraco de madeira na área aberta da fábrica. Ressalta que a seu lar é simples e não está arrumado. No diminuto quarto seu marido sentado assiste televisão com o olhar perdido e expressão indefinida. Um dos filhos chega com um saco de pão, Cida comenta que “ele tem psicose, mas é um bom garoto”. Conta que veio para o Rio “por amor ao homem”, em busca de seu marido que chegou antes para trabalhar. O marido que ali estava, permaneceu sem produzir expressão alguma. Ele está desempregado, mas trabalhava como porteiro. Cida afirma que “os patrões não mantém as pessoas muito tempo no trabalho para pagar menos”.

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Ela chegou ao Rio vinda de Cuiabá há 20 anos. Morou na Baixada Fluminense, em Nilópolis. Ainda por lá sua vida caiu por uma espiral de tragédias da qual ainda não conseguiu escapar. Após uma separação, ficou sem casa e foi morar num abrigo no bairro de Triagem, do qual guarda amargas memórias, tendo sido roubada e maltratada. Em algum outro momento da sua trajetória foi morar na invasão da fábrica de beneficiamento de leite CCPL, de onde foi supostamente reassentada com uma promessa de indenização do Estado, que  ainda não recebeu. Neste ponto seu marido falou pela primeira vez, com uma voz enfraquecida, como se não a utilizasse há algumas horas, disse que eles devem receber 32 mil. Já esperam, sem suporte do Estado, há 2 anos. Ainda na época que vivia na CCPL, Cida relata uma confusão na qual se viu inadvertidamente e que fez com que ficasse presa por 3 anos sendo inocente. Fala que alguém colocou maconha em seu bolso, a polícia descobriu e a prendeu como traficante, iniciando outro período de sofrimento e desterro em sua vida. Presa com acusação de tráfico deixou seus filhos com a sogra para cumprir a sentença.

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Cida fala de sua depressão, de como já passou muito tempo depressiva, de como está agora depressiva. Conta que só se mantém de pé “pela misericórdia de Deus”, e que ouviu o pastor dizer que a pobreza facilita a entrada no “reino dos céus”, concluindo que esta é a única vantagem competitiva de ser pobre. Não sai de casa, só para o absolutamente necessário, sofre calada. Sobre a Portelinha, diz que é muito ruim morar ali, são muitos os problemas de saúde, as pessoas sofrem de diarreia e outras enfermidades por causa do esgoto. “As pessoas vivem aqui em cativeiro”.

Caike, Paulo, Patrick e João.

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Caike, 5 Anos, quer ser jogador de futebol e nasceu na Portelinha.

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Paulo, 6 anos, quer ser jogador de basquete para ganhar troféu. Na escola gosta de matemática.

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Patrick, 8 anos, quer fazer obras quando crescer, como o avô. Talvez para consertar os enormes problemas da área onde vive.

João é um homem que vive cercado de crianças. Em seu pequeno quarto improvisado no antigo galpão da fábrica de escovas vive sozinho com 4 netos, sendo o maior deles com 8 anos. Não tem mulher e seu filho, pai dos 4 meninos, está preso há 7 anos. A mãe destes meninos os abandonou. João sustenta a todos com bicos que faz como pedreiro, mas no passado trabalhou em diversas indústrias da região, como a fábrica de parafusos Flecha, quando estas existiam. Nasceu em Minas Gerais, chegou ao Rio em 1961.

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João tem longa história de organização e ocupação de antigas fábricas e terrenos no Bairro do Jacaré. Foi presidente da Associação dos Moradores do Chupa Cabra, um aglomerado de casas que abrigava cerca de 100 famílias e ficava em perigoso terreno, abaixo da linha do Metro e do lado da linha do trem, entre trilhos. As pessoas foram retiradas do local e João se mudou para uma antiga fábrica de beneficiamento de leite CCPL, que chegou a reunir 1500 famílias. A fábrica foi implodida, aos moradores foram prometidas casas, mas João diz que nada ganhou, sem muito explicar diz que teve de se mudar para outra ocupação. O lugar onde vive há cinco anos, a Portelinha, em breve será desocupado. Todos os moradores, as 90 famílias que ali vivem, têm a promessa de serem reassentados, ganhando um apartamento novo a ser construído na região.

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João é uma liderança local e faz um discurso de reivindicação social, com duras críticas aos serviços públicos oferecidos, à saúde, e principalmente à falta de espaços de lazer para seus netos. O homem, que já trabalhou em São Paulo, comenta que naquela cidade existem mais opções de lazer gratuitas do que no Rio, destacando os parques da capital. Ele diz que o povo não quer sair da Portelinha para ir para um lugar distante, apesar da absoluta precariedade da invasão. “As pessoas querem empregos na área onde vivem”. João sonha com o retorno dos empregos para o antigo Distrito Industrial. Esta região viveu um período de ouro com centenas de indústrias e fábricas ativas, hoje resta apenas uma sombra do que já foi. João tem esperança de um dia abrir a porta e não se deparar com esgoto, em não ter ratos dentro de casa. “Quem mora em invasão quer moradia”.