Direne

Direne 1 & 2

A antiga fábrica de utensílios em plástico é uma das ocupadas há mais tempo na região, são quase 15 anos. Além da fábrica de plásticos, outros galpões e prédios menores e próximos foram incorporados, formando um pequeno complexo de ocupações, que se dividem entre Direne 1 e Direne 2. Ao todo, segundo cadastramento recente, são 190 famílias que residem neste espaço variado. Uma característica importante desta área é a proximidade com o assentamento principal do Jacarezinho, localizada numa das ruas industriais que limitam a favela.

Todas as famílias tem a promessa de breve reassentamento feita pelo Governo do Estado.

 

Sonia

Sonia relata que chegou até a Direne vinda de Engenheiro Pedreira, nas redondezas de Japeri. Descreve como motivo de sua mudança de endereço uma briga familiar. Morava com os filhos, estes casaram e juntaram as famílias. Sonia se aborreceu com uma nora e saiu de casa. Já se passaram 13 anos desde então, foi uma das primeiras moradoras da ocupação. “Moro eu e Deus”. Sonia lembra das dificuldades iniciais que o grupo que ocupou a fábrica teve. Foram diversas tentativas de ocupação até se estabelecerem. “A polícia tirava e agente voltava, e assim foi”.

Sonia que hoje tem seu pequeno negócio, sempre trabalhou, a começar pela própria casa na infância. “Se não lutar não se tem nada”.

Sobre as condições do prédio, diz que a estrutura não está agüentando. E sobre a promessa de reassentamento, comenta – “Se vier (o reassentamento) a gente tem que sair, mas tem muita gente por aí pior que nós”.

Antonieta

Antonieta é paulista e chegou da capita de São Paulo há 3 anos, após ter se separado. Ela já havia morado no Rio em outras oportunidades, mas chegou até a Direne pois sua filha mora na ocupação. Alugou um pequeno quarto de alvenaria ao lado da filha, que fica na área aberta da antiga fábrica de plásticos. Diz que trabalhou a vida inteira “de faxina”, mas hoje em dia, por causa da idade, não consegue mais suportar fisicamente a função. Conta que paga sua aposentadoria pelo INSS, mas não sabe se vai conseguir receber, “pois Deus pode me chamar antes”.

Relata que foi muito difícil se adaptar às condições de vida da Direne.“A água entra dentro da casa da gente, o esgoto é aberto. E lá pra dentro é ainda pior” (em referência a outras habitações da ocupação). “É muito ruim morar aqui, mas o que vamos fazer, a gente precisa”.

Carminha

“Agora tão olhando por nós!”, Carminha comenta em relação ao fato de estar sendo entrevistada.

Carminha veio da Bahia para o Rio há 15. Há 12 já mora na Direne, é uma das moradoras mais antigas. Morava no Jacarezinho mas era aluguel e não conseguiu manter. “Não era bom, mas pelo menos era um lugar”. Tem 4 filhos e marido, todos moram em um quarto no térreo do antigo prédio da fábrica.

Trabalha entregando panfletos, ou fazendo faxinas “quando tem”, ou seja esporadicamente. “Fora isso fico parada”, sem trabalhar.

Fala que viver na Direne é um “empurrar com a barriga. Muito esgoto e rato. Muita gente nos critica dizendo que aqui não é lugar pra morar. Mas se não for aqui, só temos a rua. Agora, graças a Deus, estamos esperando mudança… Criança aqui quase não brinca”.

Andrea

Andrea morava no Jacarezinho antes de chegar à Direne. Na época vivia de aluguel, mas como muita gente ao seu redor, perdeu as condições de manter os pagamentos e acabou expulsa da casa junto com os filhos que tinha à época . Relembra que chegou à ocupação e arrumou um “cantinho” para a família, mas a situação era muito precária, pois todo o piso da área industrial, por algum motivo, estava coberto por uma abundante camada de óleo . Hoje reside com 8 filhos no primeiro andar de uma edificação que ainda resta da fábrica semidestruída. Andrea tem 33 anos, 8 filhos e 15 anos de vida em ocupação, ou seja, desde os 18 anos de vida habita este local improvisado. Sua larga família nuclear certamente se desenvolveu quase que toda dentro da Direne. Quantas gravidezes Andrea atravessou vivendo na antiga fábrica de utensílios plásticos?

“Não trabalho, vivo de Bolsa Família, recebo 500 e pouco e assim vou levando”. Andrea tem uma atitude bastante positiva da vida, especialmente para quem está na posição que está. Para um de seus filhos a vida é ainda mais dura, pois vive numa cadeira de rodas e aparenta ter sequelas de uma paralisia infantil. Andrea explica que há um ano o garoto era normal, mas foi atropelado por um caminhão justamente na porta da ocupação. Esta é uma região ainda industrializada e com a presença de muitos veículos pesados. Descreve que o garoto dos seus 15 anos chegou a perder massa encefálica, sobreviveu, mas ficou paralisado. Enquanto Andrea detalha esta tragédia algumas vizinhas levam o garoto para passear. “Assim vou vivendo até ganhar o condomínio que o Governo está prometendo”.

“A gente tem que ser forte se não desaba”, diz Andrea, para logo complementar que leva toda esta situação sem suporte de familiares, não tem marido e sua mãe passou a viver como mendiga há alguns anos. O bom humor de Andrea enquanto narra dificuldades tão pesadas é chocante. “A gente tem que ser alegre, se não, não consigo. Vou ficar chorando num canto? Não vou”.

Katia

Katia é uma das moradoras mais antigas da Direne, faz uma estimativa de 20 anos desde que chegou à ocupação. Mora com o marido e dois filhos numa adaptação dos restos de construção da antiga fábrica de utensílios plásticos. Ela menciona que morava com a mãe no Jacarezinho e partiu pra a Direne para ter um espaço para sua própria família. “Pra mim foi melhor, ganhei minha privacidade”. Katia comenta que as condições de vida na Direne são precárias, “mas a gente vai vivendo, agora, por exemplo, tá sem água aqui, ela chega só à noite, quando chega. Tô vendo que em breve vamos sair daqui. Que bom, por que tá tudo caindo. Minha laje tá caindo”. Katia e todas as famílias 190 da Direne têm promessas de reassentamento para este ano de 2013 feitas pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro.

Luiza

“Quando eu vim parar aqui tava boa (de saúde), mas tive um AVC. Andei a pé até a UPA e foi muito bom (o atendimento)”. D. Luzia se recuperou do seu acidente vascular cerebral e hoje não tem sequelas aparentes. Conta que chegou à Direne há três anos, pois morava de aluguel. Hoje mora com o filho em espaço adaptado de uma antiga sala da fábrica de plásticos. “Comprei aqui, pensando que um dia iam tirar a gente”. Luzia nasceu na Paraíba e veio para o Rio quando tinha apenas 17 anos. “Vim com meu tio. Ele me deixou, fiquei sozinha. Tenho 3 filhos”. Comenta que não tem nada a dizer sobre as condições de habitação da Direne. “Aqui é um ajudando o outro. Tô com Deus. Vou para a praia de Copacabana vender bala de côco. Sempre trabalhei em casa de família. Como trabalhei…”.

Elisabeth

“Quando cheguei aqui, cheguei no fundo do poço. Tinha muito lixo, a firma tinha acabado de falir. Tinha muito rato. Foi muita luta, muito sofrimento, muito sufoco. Sou da Paraíba, trabalhava numa gráfica. Tive um problema de saúde, fiquei sem trabalho e sem casa. Deitava e pedia a Deus pra me mostrar um lugar. Uma amiga veio e vim com ela. Aqui era tão feio, mas falei, é melhor que na rua. Falei pro Elias (o marido) – arrumei um lugar, é feio mas eu vou. É melhor que enfrentar a dona da casa (proprietária). Só trouxe a geladeira e as roupas. Fez 16 anos que estou aqui. Tinha muito mosquito. Tinha muito óleo queimado no piso, pra limpar foi uma luta. Só vim pra cá porque minha necessidade foi muito grande. O marido também estava desempregado. Ele ganhava 190 e o aluguel era 170 (choro). Não há vitória sem luta. Quanto maior a luta maior a vitória. Espero que o milagre de sair daqui (reassentamento) aconteça. Diziam que eu tinha ido morar com os mendigos. Quando a pessoa tem um emprego ela tem muito amigos. Perdeu o emprego acabou (amigos). Morava há 8 anos numa casa antes de vir pra cá. Ainda paguei o que fiquei devendo. Vim escondido porque era muito feio. Diziam que a draga ia passar e cortar-me no meio. Peguei madeira numa antiga favela que saiu (para construir seu barraco). Diziam que iam botar fogo. Eu tinha muito medo daqui. Os ratos eram muito grandes! Eles queriam enfrentar a gente. Tenho pavor desses bichos, nem falo o nome deles!”

Elisabeth, como descrito acima, foi uma das primeiras invasoras da Direne. Criou seus filhos nesta antiga fábrica. Ela ocupa um espaço misto entre área externa e interna das ruínas. Tem um pequeno jardim que transborda verde. Conta que começou quando a vizinha de cima jogou umas sementes no seu pequeno quintal. Hoje tem um pé de aroeira e diversas plantas medicinais. O relato de Elisabeth é um pouco a síntese do que é habitar uma fábrica abandonada…

Comentário estendido

Chegando se defronta com a inumanidade do ambiente. Um local que era próprio da produção química industrial, onde se forjavam utensílios plásticos da vida moderna. Onde o chão é composto de uma espessa camada de óleo queimado, constituindo superfície o mais distante possível do conforto humano. O escuro das ruínas era dominado por hordas de ratos destemidos. Foi necessária muita coragem e suor e mais suor, e muita concentração e muita fé para transformar o cenário.

São os problemas de saúde, o desemprego, desavenças que carregam as pessoas solidariamente para estes prédios. O dilema central é entre o horror de habitar o inóspito, a destruição, e o pavor quanto às inconsequências e indignidade de morar na rua. Chegar ao ponto de ter apenas estas duas opções, e tendo uma família, é, paradoxalmente, o que faz decolar o ímpeto necessário pra ficar na fábrica e evitar a rua. E claro, não nos esqueçamos das “relações sociais” que forçaram a deslocação, os alugueis atrasados, as brigas e ameaças. Uma vez instalados na fábrica outras relações seguem a pressionar a honra, aquelas que apontam o dedo a lembrar do rebaixamento social que a condição de invasor representa. As pessoas passam uma vida nesta situação, acostumam-se para não sofrer demais. É o salário que não chega perto de cobrir as despesas, não há cobertura. É viver no habitat por excelência dos mosquitos, onde os animais urbanos se proliferam. Mas a transformação progressiva do espaço, as adaptações criativas da estrutura, constroem uma sensação de pertencimento suficiente para se equilibrar e descansar um pouco. Mesmo assim nunca se chega ao conforto mínimo, em pouco tempo os esgotos improvisados estão todos entupidos, as chuvas sempre colocando tudo em risco, o lixo se acumulando. O emprego que cisma não aparecer, os amigos de outrora sumindo, que já não te valorizam como antes. Você segue, mas não se esquece das dívidas…, pagá-las é imperativo. O sentimento é também de risco de vida quando se invade uma fábrica – polícia, capangas, perigosíssimos empresários enfurecidos, fogo, despejo, colapso. Chega-se com pouco, monta-se o teto com restos. Enfrentam-se muitos demônios e monstros, materiais e imateriais. Muita fé pra afastar tanto rato…

Fabiana

Fabiana está próxima de uma década morando nos fundos de um prédio anexo à fábrica de plásticos. São nove anos neste papel de invasora de fábrica. Sua casa fica numa área aberta. Veio de Manguinhos, como muitos outros moradores. “Comprei isto aqui numa brincadeira com um amigo no baile (funk). Não pensava em vir morar aqui. Mas tive que sair da casa da minha mãe, acabei indo morar na casa dos outros. Vim pra cá com meus três filhos e o pai da minha filha mais nova. Quando cheguei tinha uma saída de esgoto dentro da casa. Joguei concreto dentro do esgoto. Aqui é muito mosquito, muito rato, o esgoto quando entope enche tudo”.

Fabiana que trabalha de auxiliar de serviços gerais, gostaria, se pudesse escolher, ter seu próprio negócio, “ser uma empresária”, ter um pequeno restaurante.

 

Tais

Taís habita uma das áreas mais degradantes do Bairro do Jacaré. O antigo galpão, hoje sem telhas, que ocupa já fez parte da fábrica de plásticos, mas logo que abandonado foi invadido por animais. O local transformou-se num chiqueiro, ou curral, onde viviam porcos e cavalos. Saindo os porcos e cavalos entraram os humanos.

“Tô aqui há um ano, morava em Manguinhos. Separei (do marido) e tive que sair (da casa). Moro com 3 filhos (incluindo gêmeos recém-nascidos) e meu esposo. Aqui é o esgoto o pior”. Para chegar até a casa de Taís é preciso cruzar uma ponte de tábuas sobre a lama pútrida de esgoto.

Perguntada se tem algum sonho na vida Taís responde prontamente – “Sempre quis ser fotógrafa”.

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