Inabú

Esta invasão ocupa um prédio de 4 andares de um antigo abatedouro industrial de aves. São cerca de 130 famílias distribuídas entre as áreas internas e externas. Estas famílias têm hoje a promessa de reassentamento d=feita pelo Governo do Estado.

Helen

Helen chegou até a Inabú pois morava em Manguinhos de aluguel e não conseguiu manter os custos da moradia. Além de tudo, relata que a situação ficou muito perigosa, tendo sido ela baleada dentro da própria casa num dia rotineiro de confrontos entre policiais e traficantes. Depois de ter se recuperado sem sequelas uma amiga mencionou a invasão desta fábrica, então Helen e o marido decidiram se mudar. “Pra sair do aluguel, eu fui”, diz ela. Quando chegou ao prédio, há 4 anos, as condições eram inabitáveis, sem luz, sem água e muita sujeira no antigo abatedouro de aves industrial. Foi a segunda moradora a chegar, e escolheu um espaço na área interna do segundo andar do prédio. Fala que é um exercício de sobrevivência viver onde vive – “Tem hora que chega a ser subumano”. Sonha em viver num “lugar decente, digno”.

Deixou o interior de Pernambuco em 1975 em direção ao Rio sozinha e em busca de melhores condições de vida. Conta eu a único espaço que o mercado de trabalho lhe proporcionou foi “casa de família”, trabalhando como doméstica. “No Norte as pessoas não botam os filhos para estudar”. Helen praticamente não teve educação formal em sua vida, no entanto, a clareza com que se expressa e a força de suas opiniões indicam uma pessoa muito cultivada. “A vida pra mim não foi nada fácil. Todo dia que acordo é uma vitória. Mesmo num lugar ruim, minha casa é meu castelo”. Descreve que hoje, no Nordeste do Brasil a situação melhorou para os mais pobres, por conta do “Bolsa Família”. Helen mora com o marido e um filho na Inabú. Hoje trabalha como cozinheira num restaurante.

Sobre um possível reassentamento desta antiga fábrica para um prédio novo, comenta que viu isto acontecer em Manguinhos e o processo apresentou muitas falhas. “Fizeram os prédios e largaram pra lá. Tem pessoas que não estão preparadas, pois tem um limite na educação. É preciso manter o local limpo e outras coisas, mas as pessoas não estão preparadas. Precisam ser ensinadas, ter um acompanhamento. Não dá pra escutar o som alto 7 horas da manhã como fazem aqui. Não dá pra arrastar os móveis a noite”.

Relata que o serviço de saúde da Clínica da Família a atende bem, e faz até acompanhamento na casa dela, que é hipertensa. No entanto, a dengue é um problema grave na invasão, que até caso de meningite com morte já teve. O esgoto é a céu aberto, todos tem contato direto. “Nós somos seres humanos, somos gente precisando de ajuda. Só Deus mesmo pra cuidar da gente”. Helen é uma mulher de fé, faz este relato no dia de seu padroeiro, Ogum, ou São Jorge, no sincretismo brasileiro.

Lucilene

Lucilene chegou à Inabú em 2009. Veio da cidade de Macaparana, Pernambuco, assim como sua tia Helen que foi umas das primeiras moradoras da invasão. A tia cedeu parte do espaço que tinha para a sobrinha, que organizou um pequeno quarto com entrada independente para morar com os 3 filhos. Conta que deixou o interior do Nordeste principalmente porque seus avós faleceram e ela ficou “sem chão”, sentindo-se desamparada. Além do mais, relata que as condições de vida lá eram muito difíceis, tendo precisado morar de favor em vários lugares com seus filhos. “Passei muita coisa vivendo na casa de um e de outro. Meus filhos crescendo sem estrutura”. Comenta que no Nordeste só é bom “pra quem já tem o seu”. Hoje trabalha num lanchonete de fast food, e espera com expectativa a possibilidade de finalmente ter uma morada sua. “Se Deus quiser vou ter meu canto, minha casa”.

Maria e Tatiana

Mãe e filha chegaram à Inabú vindas do Rio do Ouro, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Nesta ocupação já fazem 4 anos. Maria trabalha como doméstica, e tem mais dois filhos além de Tatiana. Diz que comprou seu pedaço no terceiro andar do antigo abatedouro pois não tinha dinheiro para nada além disso. – “Isso aqui é horrível, só moro aqui porque preciso”.

Tatiana está grávida do primeiro filho, tem 22 anos. Perguntada se tem sonhos na vida, diz que não, que gostaria apenas de trabalhar, “com qualquer coisa”. Também se diz desconfiada das promessas de reassentamento feitas pelo Governo do Estado.

Carlos Willian

Carlos chegou há 3 anos na Inabú com sua família, mulher e dois filhos, pois “não tinha onde morar”, como afirma. Antes residia com seus irmãos, numa casa para várias famílias. Ele descreve as condições de vida na Inabú como extremamente precárias. Primeiro, ao chegar, ocupou um espaço no segundo andar da antiga fábrica, onde tinha muita umidade. Precisou, ou conseguiu, sair deste local somente após uma tragédia familiar. Outra criança nasceu, mas infelizmente morreu com 6 meses, segundo Willian, de “friagem”. “São muitas infiltrações, muito rato, muito mosquito”. Willian é aposentado e ganha um salário mínimo através do LOAS, benefício dado à indivíduos em alta vulnerabilidade social. Ressalta o péssimo atendimento do centro público de assistência social da região. Willian complementa sombriamente – “Não temo solução, só se decidir morrer”.

 

Alexandra

Alexandra tem apenas 18 anos mas já vive na Inabú desde os 15 com seu marido e duas filhas. Uma das meninas, inclusive, nasceu na antiga fábrica. A família morava de aluguel na favela do Jacarezinho, mas após a perda de emprego do marido, eles precisaram encontrar outro lugar pra viver. Uma vizinha mencionou sobre a Inabú, então eles, que não tinham para onde ir, se juntaram à invasão do antigo abatedouro industrial. “Foi bom”, diz, referindo-se ao fato de não precisar mais pagar aluguel.

Sobre as condições de vida locais, reclama bastante da falta d’água e das quedas de energia, que “estragam as coisas da geladeira”. Estudou apenas até a terceira série, tendo já trabalhado em cozinhas e restaurantes. Hoje não exerce atividade profissional. Suas duas filhas frequentam creche municipal.

Um capítulo trágico de sua trajetória e ocorrido ali mesmo na ocupação, foi a queda que sofreu de uma laje. Lamentavelmente, estava grávida, grávida de 6 meses, e de gêmeos. Os bebês não sobreviveram…

Perguntada sobre sonhos, Alexandra fala que seu único sonho é ter uma casa de verdade para suas filhas. “Pra tudo penso primeiro na minha família”.

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